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Kleiton & Kledir mostram mesmo frescor de 20 anos atrás em novo DVD

Terça, 14 de Julho de 2009

RIO - A certa altura do DVD "Autorretrato" (Som Livre, lançado também em CD), Kledir lembra a ocasião em que Kleiton falou de sua vontade de guardar algumas coisas para sempre. Ele sugeriu ao irmão, então, que tirasse uma foto: "Kleiton fez uma canção". Em seguida, a tocam no estúdio.

É nos primeiros versos da composição, "Só pra te ver", que está a descrição mais perfeita deste encontro da dupla: "O tempo passa depressa/ A vida, bem devagar". Sem lançar um disco de inéditas desde a década de 1980, Kleiton & Kledir retornam como se as horas tivessem parado desde então. Não há, em nenhuma das 13 faixas do CD/DVD, a poeira nostálgica dos bons tempos de sucesso nas rádios. "Autorretrato" ignora o hiato e traz, com naturalidade, o mesmo frescor, o mesmo sotaque musical estranho e familiar, a mesma poética comum e exata dos hits lançados pelos bardos pop gaúchos há mais de 20 anos ("Deu pra ti", "Paixão", "Nem pensar"...). Tudo embalado em arranjos que soam contemporâneos, mas que podiam muito bem ser de outro tempo - tocam no disco músicos como Caio Fonseca, Jam da Silva, Luciano Granja, Maurício Coringa e Paul Ralphes (também produtor).

Polca e cuias de chimarrão marcam gauchice da dupla

A cena descrita no início deste texto é um bom exemplo da dinâmica íntima do DVD. O documentário de Edson Erdmann costura imagens dos bastidores da gravação, falas dos irmãos sobre as canções e sobre eles mesmos (seguindo o conceito de autorretrato) e clipes feitos no estúdio usando recursos inventivos e simples - como os pequenos objetos que passam em primeiro plano em "Tudo eu". Capricho visual sem afetação que reflete o repertório.

Marca da dupla, o humor britânico-gaúcho (como as composições) atravessa o DVD, em faixas como "Tudo eu", "Autorretrato" e "Eva" - que ganhou uma variação masculina, "Adão", que as Chicas cantam nos extras. As falas também provocam sorrisos: "Costumava me chamar Kleiton, hoje me chamo Kleiton & Kledir".

Também marcante em sua música, a "gauchice" da dupla fica evidente na presença das cuias de mate no estúdio e, claro, nas canções. Sobretudo no rasqueado de "Estrela cadente", na polca-ska "Polca loca" e no memorialismo de "Pelotas".

A relação com a memória, com o correr dos dias, vai além de "Pelotas" e da citada "Só pra te ver". "História de amor" é uma reflexão sobre um caso de amor que não houve - exemplo bem-acabado de como funciona a poesia cotidiana de K&K, em versos como "Meu erro foi fazer o que não fiz". E, no espírito defendido pelo disco, "O tempo voa" afirma: "Voa, o tempo voa/ (...) E se Deus nos abençoa/ Sei que muita coisa boa/ Ainda vai rolar".

 

Leonardo Lichote
O Globo / Segundo Caderno

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